| Ciclo
de Palestras terá presença de Bautista Vidal,
o “Pai” do ProÁlcool
17/08/2005
As Secretarias de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
e da Agricultura e Abastecimento estão trazendo a Curitiba,
para um ciclo de palestras nas universidades estaduais, o
professor José Bautista Vidal, responsável pelo
planejamento e implantação do Programa Nacional
do Álcool (PROÁLCOOL) no Brasil. As palestras,
organizadas pela Assessoria de Assuntos Acadêmicos da
Ciência e Tecnologia serão realizadas nos meses
de agosto e setembro e reunirão representantes de todos
os segmentos da sociedade.
Bautista
Vidal também foi o primeiro Secretário de Estado
de Ciência e Tecnologia do Brasil (Bahia-1969-72) e
três vezes Secretário de Tecnologia Industrial
do Ministério da Indústria e do Comércio,
além ocupar várias outras funções
junto a organismos de pesquisa e desenvolvimento científico-tecnológico,
foi presidente da Coordenação do Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (CAPES) , da Coordenação
de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial
(CONMETRO); do Fundo Nacional de Tecnologia (FUNAT); do Fundo
Nacional de Metrologia (FUMET); e da Fundação
de Tecnologia Industrial (FTI).
Vidal
fundou cerca de cerca 30 instituições de pesquisa
e desenvolvimento; criou o Curso de Especialização
em Geofísica da Universidade Federal da Bahia; foi
professor de Administração Estratégica
no Mestrado da Universidade de Brasília; ocupando,
ainda, o cargo de consultor das Nações Unidas
(UNESCO e UNIDO), OEA, BID, BNDES, de Governos Estaduais e
de várias outras instituições.
O
objetivo do ciclo de palestras sobre biocombustíveis
é, segundo a Assessoria Estudantil da SETI, “fomentar
a discussão junto à sociedade, informando-a
sobre projetos desenvolvidos pelo Governo do Estado nessa
área”. Também é intenção
contribuir para a formação de “Núcleos
de Biocombustível” a partir da mobilização
de prefeituras, câmaras de vereadores, entidades ligadas
à agricultura, indústria e comércio,
sindicatos rurais e comunidade acadêmica.
( Box)
Confira
o que Bautista Vidal pensa
sobre energias alternativas
“O Brasil vai ser a grande potência de energia
líquida do planeta”. A frase é do polêmico
físico e engenheiro José Walter Bautista Vidal,
conhecido por ser um dos principais responsáveis pela
implantação do programa Pró-Álcool,
na década de 70. Desde aquela época, Bautista
sustenta a superioridade brasileira em relação
às fontes de energia limpas e renováveis. E
seu nome volta a ser bastante mencionado agora que o Brasil
entrou novamente no caminho para a produção
de energias alternativas ao petróleo.
Segundo
especialistas, o petróleo e outros combustíveis
fósseis estão no fim e as reservas podem durar,
no máximo, mais 40 anos. Fato que já se sabe
há tempos, mas que agora tem impulsionado os países
grandes consumidores desse tipo de energia a procurar alternativas
– a ratificação do Protocolo de Kyoto
em fevereiro serviu como um incentivo a mais para esta procura.
E o Brasil é a grande potência mundial para esta
produção. Por isso, o governo Lula editou o
marco regulatório, em 6 de dezembro de 2004, do Programa
Nacional de Produção e Uso de Biocombustíveis.
A
idéia é incentivar a produção
de plantas oleaginosas – como mamona, dendê, girassol,
palma e soja – que servem para a criação
do biodiesel. E, além de ser uma alternativa ao petróleo,
o programa deve impulsionar e desenvolver a agricultura familiar.
Mas as imposições governamentais em relação
à implementação do projeto ainda são
tímidas. Percebe-se isso, principalmente, porque a
adição de biodiesel ao diesel é de 2%
até 2008, e não é obrigatória
até essa data. Medidas como essa são extremamente
discutíveis, como Bautista deixa claro na entrevista
que segue. Além dessa polêmica da quantidade,
o Programa envolve outras dúvidas.
Como
o fato de que, para viabilizar a proposta, o governo vai conceder
reduções de até 100% do PIS e do Confins,
isenção do Imposto Sobre Produto Industrializado
(IPI) e concessão de linhas de financiamento do BNDES
com juros menores. Só que esses incentivos privilegiam
as regiões norte e nordeste do Brasil, onde o desconto
será maior.
Discussões
à parte, o biodiesel pode ser a solução
para alguns problemas brasileiros. Isso porque ele é
produzido através de fontes renováveis, pode
ser usado puro ou misturado ao diesel e não é
necessária nenhuma modificação nos motores
dos automóveis. Além disso, é nacional,
o que reduz as dependências brasileiras do mercado internacional
do petróleo. Mas ao mesmo tempo existem riscos, como
a possibilidade de que o programa seja um concentrador de
rendas e terras, já que se teme que a indústria
da soja seja a única responsável pela produção
do óleo vegetal.
Nesta
entrevista, o ex-secretário de Desenvolvimento de Política
Industrial do Ministério do Desenvolvimento da Indústria
e Comércio dos Governos Geisel e Sarney, deixa claro
que o Brasil só depende de vontade política
para que o desenvolvimento aconteça e o país
seja líder na produção mundial de energia
líquida. Hoje à frente do Instituto do Sol –
criado para contribuir intelectual e praticamente nas grandes
questões contemporâneas – Bautista Vidal
esclarece seu posicionamento em relação à
política brasileira do biodiesel e fala sobre riscos
e vantagens que vê para o Brasil hoje.
A
política do biodiesel começa a ser desenhada,
depois que o governo editou o marco regulatório do
Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel,
em dezembro de 2004. Como o senhor vê a implantação
deste programa agora?
É
um fato novo muito importante. O Banco do Brasil, induzido
pelo Instituto do Sol, que eu dirijo, tomou essa iniciativa
de aprovar um programa de financiamento na área da
biomassa, e agora especificamente com o biodiesel. O Banco
do Brasil, que é um banco consistente e que tem recursos,
vai viabilizar a produção dos pequenos produtores
da agricultura familiar e aí começaram a surgir
estes projetos. No Norte já está sendo cogitada
a plantação de girassol em uma área de
100 mil hectares de assentamentos.
E
está se prevendo ampliar isso para 400 mil hectares.
Os assentamentos já estão feitos, mas não
tinha produto a ser consumido pelo mercado. Aí surgiu
o biodiesel com um mercado nacional e internacional. Outro
projeto foi no Rio Grande do Sul, que envolve 21 municípios
e cerca de seis mil pequenos agricultores proprietários.
Gente que tem, em média, dez ou 12 hectares de terras.
É assim que se conjugou um grupo de mais de 100 mil
famílias que estão entusiasmadas, porque a soja
está indo pro buraco e o biodiesel é um produto
estratégico e de mercado de valor ascendente.
Essa
plantação no Rio Grande do Sul é de mamona?
Não.
Nem no Rio Grande do Norte a mamona vai ser utilizada, porque
ela produz menos, é mais complicada e tem problema
de seca. O pessoal do nordeste não está aceitando
bem a mamona não. Há outros produtos muito melhores.
Perguntei
isso porque li uma matéria sobre a Petrobrás
estar investindo na produção da mamona no Rio
Grande do Sul para a produção do biodiesel.
Pois
é, a Petrobrás falou isso já há
uns anos, mas até agora não conseguiu fazer
nada. Porque a variedade de oleaginosas é grande e
quem conhece isso mesmo é o produtor. Por exemplo,
o girassol produz muito mais óleo que a mamona e resiste
a seca, então tem uma série de fatores a serem
considerados. Mas o mais importante é a competência
local, é do pessoal que sabe plantar.
A
coisa está desencadeando e quando começar a
produzir esses primeiros, aí é que vai aumentar
muito. E o mercado é muito grande. O mercado de óleo
diesel no Brasil é de 39 bilhões de litros e
é mundialmente aberto. Japão, Alemanha, Índia,
China, todo mundo está ansioso por ter acesso a essa
energia renovável e limpa do ponto de vista ecológico.
O
programa está sendo visto não somente como uma
alternativa ao petróleo, mas como incentivo à
agricultura familiar. Mas alguns críticos ao projeto
alegam que a soja pode produzir maior quantidade de óleo
vegetal e isso pode significar que a produção
do biodiesel fique nas mãos dos grandes produtores.
Não,
porque a soja tem uma produtividade muito baixa. O perigo
da soja – e daí coloco como perigo – é
que o Brasil é o maior exportador de soja hoje, mas
está na mão de seis corporações
americanas e elas manipulam as bolsas de valores. E como o
farelo é o valor maior da soja, eles podem colocar
o preço do óleo muito baixo e daí derrubar
todos os outros, porque eles manipulam as bolsas, né?
E o maior perigo ainda é que essa soja transgênica
é patente da Monsanto, e aí ela pode tomar conta
da soja brasileira, expulsar o brasileiro do campo e ainda
fechar a Petrobrás. Já pensou?
Não
foi mais ou menos esse tipo de intervenção externa
que aconteceu com o Pró-Álcool?
Não.
No Pró-Álcool foi mais burrice dos tecnocratas
brasileiros que não levaram em conta que o álcool
tem uma produção extraordinária. Nós
somos hoje o maior produtor do mundo de álcool, só
que produzimos o álcool pela metade do preço
do segundo produtor, porque temos a melhor tecnologia do mundo.
O segundo são os Estados Unidos. Agora que ocorreu
o colapso do Petróleo, o álcool que é
o grande substituto da gasolina em todo o mundo está
em uma condição que nenhum país consegue
competir com o Brasil.
Chegamos
a substituir 96% dos carros a gasolina para álcool
na época do Pró-Álcool. Ano passado essa
substituição foi de 1%, porque começaram
a criar restrições tributárias, etc.
E isso certamente foi fruto das pressões dos banqueiros
internacionais e das companhias de petróleo automobilísticas,
que não querem produzir álcool porque eles não
são capazes de produzir nos países de origem,
porque falta sol e água.
Naquela
época, cerca de 30% dos produtores de cana eram pequenos
proprietários. Aí o Banco Mundial e o FMI pressionaram,
o governo brasileiro cortou o crédito para o financiamento
dos pequenos produtores e eles deixaram de produzir álcool.
Daí faltou álcool, foi aquele colapso famoso
conhecido artificialmente, porque cortaram crédito
sobre o álcool, mas não cortaram o dos outros
produtos, então eles foram produzir soja, qualquer
outra coisa que tinha crédito.
Quer
dizer, faltando 30% de cana que eles produziam, faltou 30%
de álcool. Aí quem é que vai comprar
o carro sem a garantia de ter o combustível? Então
mataram o programa de maneira perversa. Mas é claro
que isso vai ressurgir com enorme esplendor porque o mundo
todo está pedindo que o Brasil retome a grande produção
de álcool.
Eu
estava me referindo justamente a esse corte de crédito
imposto por pressões internacionais.
Acho
que não vai acontecer, até porque os óleos
vegetais são variados, cada região tem seu produto
de destaque. Na Amazônia é o dendê e no
Nordeste pode ser o girassol ou a manona – ela apresenta
certas dificuldades, mas também serve.
A
mamona é mais para produzir lubrificantes ou então
para produzir a refino química, que é uma nova
petroquímica que não é tóxica,
e é biodegradável. A mamona tem um papel importantíssimo
nesse programa da Biomassa como matéria-prima e não
como combustível. Ela é um produto muito nobre
para ser queimado, não é um bom caminho. Agora
já os outros não. O girassol, o dendê,
o amendoim, é uma variedade enorme, são todos
produtos de altíssima produtividade. E isso só
oferece vantagens ao Brasil. Você produz óleo
vegetal em praticamente todo o território nacional.
É
verdade que a tecnologia para produzir biodiesel é
mais complexa que a para a produção do álcool
e que isso representaria um empecilho para a produção?
Ela
não é mais complexa. Estou no Instituto do Sol
com uma equipe de engenheiros da indústria química
e a indústria química há mais de cem
anos faz éster, e o biodiesel nada mais é do
que transesterificação. Então nós
temos suporte.
Há
vários inventores que desenvolveram coisas recentes
e interessantes, mas prefiro ir ao ciclo da indústria
química que faz isso há muito tempo e com a
maior tranqüilidade. Com a assessoria deles nós
não vamos ter nenhuma dificuldade em produzir, a partir
do óleo vegetal, o biodiesel. Não vai ter nenhum
risco, não há nenhuma complexidade. E os custos
de investimento são baixos.
O
que é o Instituto do Sol?
Quando
eu estava na Secretaria de Tecnologia Industrial, tinha lá
dois mil especialistas trabalhando, que eram os melhores do
mundo, e montaram o programa do álcool. A partir do
governo Collor aquilo se desmembrou, quer dizer, fecharam
a Secretaria e essas pessoas de alta competência mundial
ficaram sem muita função. E o Brasil tem uma
equipe de competência que se dissolveu. Daí eu
criei esse Instituto, sem fins lucrativos, para prestar serviços
públicos e estou atraindo toda essa gente de enorme
competência e know how precioso.
E
foi esse grupo que já reuni, gente de primeira categoria,
conhecedores e dominadores dessa coisa, que auxiliou o Banco
do Brasil a montar o programa de Biomassa. Agora vamos atuar
sobre os produtores e ampliar esse programa para transformar
o Brasil na maior potência energética do planeta,
porque é essa a predestinação.
Só
com o óleo de dendê pode-se produzir óleo
diesel em uma quantidade de oito milhões de barris
por dia. Ora, oito milhões de barris por dia é
a produção atual da Arábia Saudita, a
maior reserva de petróleo. Isso só do dendê.
Agora evidentemente a Arábia Saudita dentro de dez
anos vai produzir menos porque está depauperando a
sua reserva. E aqui, com o aumento da produtividade da atividade
agrícola, o que sempre é possível, vai
acontecer o aumento da nossa produção. Então
a nossa situação no mundo é singular.
Mas precisa decisão política para construir
infra-estrutura, para preparar o Brasil para esse grande desafio
de ser a grande potência de energia líquida do
planeta Terra.
E
o senhor acha que o governo Lula vai ter competência
para dar continuidade a esse programa?
Olha,
governo é governo, mas o Lula não tem por que
não chamar as melhores pessoas do país que conhecem
esse assunto. E o Brasil tem nível tecnológico
para resolver isso facilmente. É só ele decidir,
é uma decisão política. Se colocar pessoas
incompetentes, não vai sair nada. Não estou
dizendo que ele está fazendo isso.
Estou
dizendo apenas que no Brasil estão as pessoas que mais
conhecem a questão da biomassa e a produção
de energéticos e derivados. Porque foi o único
país do mundo, há 27 anos, que criou um programa
alternativo ao petróleo. Não houve outro, só
o Brasil. O que demonstra a sua competência. Tecnologicamente
estamos na frente de todo mundo, temos 400 e tantas usinas
produzindo há muitos anos.
Mas
estamos atrasados em relação à aplicação
prática.
À
aplicação prática e teórica também.
Temos os melhores pensadores dessa área do mundo, gente
de primeiríssima e que tem experiência no fazer.
O Brasil tem todas as condições para fazer isso,
com um pé atrás e outro na frente, sem nenhum
problema. Mas precisa de decisão política porque
entrar na área de energia é jogo de poder mundial.
Tá lá o pessoal do petróleo, do gás,
todos são contra e são contra por razões
econômicas de outros povos.
Porque
nós não somos a civilização do
hidrocarboneto, somos a civilização dos derivados
do carbono, do álcool, do açúcar, do
óleo vegetal, da mandioca... O nosso futuro, e o que
vai abastecer o mundo para sempre, são os combustíveis
renováveis e limpos, e não combustíveis
não-renováveis e sujos, que emporcalham o mundo
e que levam à guerra, como o petróleo está
levando. É só querer para fazer, se não
faz é por má fé, nem por burrice é,
porque a inteligência existe.
O
senhor acha que a adição voluntária de
2% de biodiesel ao diesel, até 2008, é uma medida
eficiente?
Há
27 anos, quando eu estava implantando o pró-diesel,
o início era 20%. Só que a Mercedes Benz da
Alemanha, daí a Mercedes Benz do Brasil entusiasmada,
sabotou. E aí o governo ficou acuado, como sempre acontece,
e quando saí a coisa parou. Há 27 anos eu tava
misturando 20. E agora as condições são
muito superiores, o mercado ampliou barbaridade.
Os
países grandes consumidores, que não tem petróleo
como o Japão e a Alemanha e China, estão desesperados
para sair do petróleo. Porque o petróleo vai
falhar a qualquer momento. Se faltar petróleo no Japão
ele vira sucata em seis meses. Estão loucos os japoneses
para que o Brasil passe a exportar uma grande quantidade de
combustíveis para eles saírem desta enroscada
que é o petróleo.
Então
o senhor acha que essa medida de adição voluntária
de 2% é ineficiente?
Por
que não adiciona 80%? Acho que essas metas estão
muito mal equacionadas. Elas deveriam mudar profundamente,
abrir a possibilidade para haver mudança.
No
programa do Pró-Álcool nós não
colocamos metas, o programa foi rolando e 98% dos carros a
gasolina passaram a ser a álcool. Isso pelo interesse
do comprador, do consumidor, do produtor, pelo interesse nacional,
do meio-ambiente, por tudo isso. Por que limitar a 2%? Por
um uniforme em todo o país? Acho uma medida ridícula.
E
o senhor acha que é possível mudar essa medida?
Qual
é o problema? Qual é o problema de um produtor
que quer produzir, produzir tendo financiamento correto? Não
tem problema nenhum. Você tem um continente inteiro
pra produzir, não é 2% não, é
substituir todo o diesel do mundo. Qual é o problema?
Com todo esse território vazio, o país abandonado,
com imensas áreas sem produzir nada, certo?
É
simplesmente uma imposição política.
É
uma imposição estúpida. Antes de política,
estúpida. É claro que é de natureza política,
dos interesses estrangeiros aqui comandando e sendo contra
os nossos próprios interesses. O estúpido é
aceitar isso. Mas tudo isso vem de fora, porque eles não
têm condições de competir conosco e então
procuram por meios restritivos, por causa dessa maldita dívida
externa brasileira que não era necessária.
Quer
dizer, estamos com a faca no peito, então eles fazem
o que querem, né? E os dirigentes brasileiros se comportam
como eunucos, todo mundo baixa a cabeça servilmente.
Servil é o que não pode ser. O país que
quer ser uma grande potência energética não
pode ser um país servil, não pode ser um país
colônia. Como é que se perde a oportunidade de
ser o grande supridor de energia líquida do planeta?
Isso não pode ser incompetência, porque demonstramos
ser o país mais competente nessa área. É
má fé. Má fé, contrária
aos interesses brasileiros.
A
Agência Internacional de Energia (AIE) aponta o Brasil
como um dos países de maior competitividade no mundo
na produção de biocombustíveis. Rick
Sellers, economista da AIE, calcula que enquanto o barril
de petróleo estiver acima dos 25 dólares a competitividade
do Brasil é indiscutível. O senhor concorda?
Super
competitivo, sem dúvida. Quando você paga o petróleo
o dinheiro vai embora. Com o biodiesel, vai ter criação
de empregos para alimentar a indústria, para dar autonomia
nacional e tecnológica, ou seja, é altamente
vantajoso para o Brasil. O dólar vai embora para produzir
trabalho lá nos países pobres de energia. Isso
é uma política idiota.
O
senhor acha que a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto serve
para incentivar ainda mais o programa do Biodiesel?
Serve.
Só que os países hegemônicos já
falaram até da criação de um fundo que
só eles vão poder utilizar e daí eles
ficam com uma dinheirama enorme pra chegar aqui e comprar
toda a nossa indústria do álcool. Pode até
haver esse risco. É claro que até agora não
se atreveram a tanto, dizem que é para tirar de quem
polui e entregar a quem não polui.
Nessa
condição, vamos ficar em uma situação
excepcional, não é? Vamos receber centenas e
centenas de milhões de dólares porque nós
somos o país que menos poluí no mundo e com
a ampliação do biodiesel vamos ser mais ainda,
né? Deveríamos ser altamente recompensados,
e como toda justiça.
Mas
você sabe que colher de chá os hegemônicos
não dão. Eles só querem tirar e roubar.
Veja o que eles fizeram no Iraque: invadiram e mataram pra
tirar o petróleo dos iraquianos. Vão fazer isso
agora no Irã, não tenho a menor dúvida.
Então as nações hegemônicas militarmente
poderosas não são flor que se cheire. Veja aí
o Bush que barbaridade de truculência...
Voltando
um pouco de assunto, o senhor acha que o desmatamento pode
aumentar para que cresçam as áreas destinadas
à produção de biodiesel?
Mas
como desmatamento? Somos um continente e você está
se referindo ao desmatamento na Amazônia. O produto
que é de altíssima produtividade na Amazônia
é o dendê. O dendê é uma árvore,
não precisa desmatar. Agora tem que manter a biodiversidade,
coloca o dendê, a castanha, a mandioca, o cacau, tudo
isso são produtos energéticos, e mantém
a biodiversidade. Então só será a favor
da manutenção do meio-ambiente. É uma
grande medida em relação ao meio-ambiente.
Além
de que os combustíveis renováveis e limpos tropicais,
não produzem poluição nenhuma. Ao contrário
do petróleo, do óleo diesel e do óleo
industrial que são altamente poluentes. Ao contrário
do Programa do Gás, que é uma barbaridade e
deu um prejuízo enorme à Petrobrás.
O
biodiesel só tem vantagens ecológicas. É
um sistema realmente sustentável, que tem por origem
energética o sol. O sol está aí alimentando,
você capta essa energia e usa energia limpa. É
essa a dinâmica. O petróleo não. Tem que
acumular CO2 durante quatrocentos milhões de anos e
depois queima aquilo em duas ou três gerações.
Você cria o maior problema ecológico que jamais
existiu que é o efeito estufa.
O
senhor é contra a utilização do gás
natural como fonte de energia?
O
gás é petróleo também. Eu assisti,
há uns quatro ou cinco anos, a um debate no Instituto
de Engenharia em São Paulo, no qual havia dois ex-ministros
metendo pela goela o gás da Bolívia. Nós,
Engenheiros Dirigentes da Associação de Engenheiros
da Petrobrás (AEPET) fomos lá, retrucamos e
eles não tiveram argumento válido para continuar
com essa coisa horrível.
Só
que como as corporações do petróleo tinham
o gás do Peru e da Bolívia e não tinham
mercado, a única possibilidade era o Brasil. Eles queriam
botar isso goela abaixo do Brasil e conseguiram. Quer dizer,
compramos gás e mais de um terço não
foi utilizado. Pagamos por um gás que não utilizamos.
E é o preço do petróleo, é uma
barbaridade. Entre as alternativas que tínhamos para
essa questão da energia, a do gás era a oitava
e olhe lá. Mesmo assim montaram essa barbaridade que
já deu muitos bilhões de dólares de prejuízo
à Petrobrás, e evidentemente, ao Brasil também.
Quanto
tempo o senhor acha que vai demorar para o Programa do Biodiesel
estar implantado e para que o Brasil se torne um exportador
dessa forma de energia?
Olha,
eu diria que o que está favorecendo muito esse programa
é o Bush. Porque o Bush está ocupando militarmente
as últimas reservas de petróleo que sobram,
e isso está colocando países como Japão,
Alemanha e China em polvorosa, eles estão assustados.
Onde é que eles vão buscar petróleo?
Então eles estão pressionando intensamente o
Brasil. Mas as respostas do Brasil estão sendo muito
tímidas.
Quando
estive na Conferência Internacional sobre Energias Renováveis,
em Bonn, na Alemanha, em maio de 2004, havia quase um protesto,
só não chegava a ser um protesto por delicadeza,
mas havia uma incompreensão em relação
a como o Brasil recuou.
O
Brasil que será o grande fornecedor de energia renovável,
o futuro do mundo é energia renovável, a era
do petróleo já acabou, a era nuclear mais ainda,
então como que o país que tem o maior potencial
recua e abandona suas metas? A possibilidade de você
exportar combustíveis líquidos para o Japão,
para a Alemanha, em quantidades imensas, vai criar milhões
de postos de trabalho. Como é que se joga fora isso?
Evidentemente não é só incompetência,
né?
Fonte:
Revista EcoTerra Brasil - Melissa Crocetti
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